O FIM DO TIRO RECREATIVO NO BRASIL E SEUS IMPACTOS PARA A SEGURANÇA, O ESPORTE E A SOCIEDADE

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Durante décadas, o tiro recreativo representou a principal porta de entrada de milhares de brasileiros para o universo do tiro esportivo, da cultura de segurança e do uso responsável de armas de fogo.

Muito além da competição e dos campeonatos, o tiro recreativo consistia simplesmente na possibilidade de um cidadão – maior de idade e de bons costumes – por livre e espontânea vontade, dirigir-se a um clube de tiro para aprender, praticar e desenvolver habilidades em ambiente controlado, supervisionado e seguro, sem qualquer obrigação competitiva ou finalidade profissional.

Assim como alguém pode aprender a dirigir, pilotar, navegar, andar de bicicleta ou praticar qualquer modalidade esportiva por lazer, inúmeras pessoas buscavam os clubes de tiro apenas pelo interesse em conhecer a atividade, por curiosidade, por gostar de armas de fogo, além de aperfeiçoar técnicas de segurança e desfrutar de uma prática esportiva e recreativa de forma responsável.

Contudo, com a entrada em vigor do Decreto nº 11.615 em 21 de julho de 2023, a prática do tiro recreativo com armas de fogo por pessoas que não possuam Certificado de Registro de Atirador passou a ser proibida nas entidades de tiro desportivo, alterando profundamente a realidade dos clubes e dos futuros praticantes do esporte.

O tiro recreativo era a principal porta de entrada para o tiro esportivo

Grande parte dos atuais atletas, competidores e praticantes do tiro esportivo tiveram seu primeiro contato com a atividade justamente através do tiro recreativo.

Era comum que cidadãos interessados realizassem alguns disparos sob orientação de instrutores habilitados, conhecessem as regras de segurança e, posteriormente, decidissem ingressar no tiro esportivo de forma definitiva.

Com o encerramento dessa possibilidade, muitos clubes perderam o principal mecanismo de formação de novos atletas e de renovação do esporte.

O treinamento constante fortalece a cultura de segurança

Existe um princípio amplamente reconhecido em diversas atividades: pessoas treinadas tendem a agir de forma mais segura do que pessoas sem treinamento.

No universo das armas de fogo, o contato frequente com instrutores, profissionais experientes e protocolos rígidos de segurança permite reforçar constantemente procedimentos fundamentais, como o controle da direção do cano, a verificação da condição da arma, o armazenamento seguro, o transporte adequado e a adoção de comportamentos preventivos.

O treinamento periódico permite corrigir maus hábitos, aperfeiçoar técnicas e aumentar a familiaridade do praticante com os procedimentos de segurança.

Sob essa perspectiva, muitos profissionais do setor entendem que a prática supervisionada contribui para o fortalecimento da cultura de responsabilidade e segurança no manuseio de armas de fogo.

O proprietário legal de arma também necessita treinamento

Outra questão frequentemente ignorada no debate é a situação do cidadão que possui legalmente uma arma de fogo registrada para defesa residencial ou patrimonial, mas que não possui Certificado de Registro de Atirador.

Essas pessoas continuam possuindo responsabilidades relacionadas ao armazenamento, manuseio e utilização segura de seus equipamentos, além da necessidade de estarem preparadas para agir corretamente em situações excepcionais e emergenciais.

Para muitos proprietários legais, o treinamento periódico representa parte essencial da posse responsável da arma de fogo.

Afinal, possuir um equipamento sem treinamento adequado jamais foi sinônimo de segurança.

Tiro recreativo não é competição

Um dos equívocos mais comuns é imaginar que toda atividade desenvolvida dentro de um clube de tiro está necessariamente relacionada à competição esportiva.

Na prática, milhares de brasileiros simplesmente desejavam praticar tiro pelo lazer, pela diversão, pelo desafio pessoal, pela concentração, pelo desenvolvimento de habilidades ou pelo interesse técnico na atividade sem obrigatoriamente terem CR de Atirador ou serem filiados aos Clubes de Tiro.

Da mesma forma que alguém joga futebol aos finais de semana sem disputar campeonatos profissionais, muitas pessoas buscavam os clubes de tiro apenas para praticar uma atividade lícita em ambiente seguro e supervisionado.

O debate continua aberto

A discussão sobre os limites, os impactos e as consequências da proibição do tiro recreativo permanece presente entre clubes, atletas, juristas, entidades representativas e proprietários legais de armas em todo o país.

Independentemente das posições políticas ou ideológicas envolvidas, é inegável que o tiro recreativo desempenhou papel relevante na formação de atletas, na disseminação da cultura de segurança e na aproximação da sociedade com a prática esportiva do tiro em ambiente controlado e supervisionado.

Para muitos brasileiros, o fim do tiro recreativo representou não apenas a perda de uma atividade de lazer, mas também o encerramento da principal porta de entrada para o esporte, para o treinamento responsável e para a construção de uma cultura de segurança baseada no conhecimento, na prática e na responsabilidade.

A CACBR entende que segurança, treinamento e responsabilidade caminham juntos e que toda discussão sobre políticas públicas relacionadas às armas de fogo deve considerar também a importância da educação, da capacitação e do treinamento contínuo dos proprietários legais e praticantes das atividades esportivas relacionadas ao tiro.

Confederação dos Atiradores e Caçadores do Brasil – CACBR

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